QUANTO VALE UM MESTRADO?

PORTO ALEGRE (difícil) | Em 2010, o Cpers, sindicato dos professores e funcionários da rede estadual de ensino do Rio Grande do Sul, divulgou um relatório apontando a falta de aproximadamente 7 mil professores nas escolas públicas gaúchas. O levantamento mostrou que cerca de 60% das instituições de educação do RS apresenta déficit de pessoal.

O último concurso do magistério estadual foi há exatos 10 anos, durante o Governo Olívio Dutra. Na ocasião, 71 mil profissionais candidataram-se às vagas. Destes, menos de 10% conseguiram assumir cargos no funcionalismo. Desde aquele longínquo 2001, o estado administra as licenças, progressões, aposentadorias, afastamentos e mortes de seus funcionários contratando pessoal com salários miseráveis e em condições de total instabilidade (os contratos duram dois anos e a carga horária pode ser preenchida de qualquer jeito, dependendo das necessidades da escola).

Como professor formado há três anos e meio e desempregado que sou, já participei de vários destes editais. Revirando minha documentação, constato que foram seis tentativas. A primeira, em 2009. A última, no início deste mês.

Para inscrever-se, diz o Edital 07/2011, é necessário possuir: licenciatura plena e/ou diploma de curso superior na disciplina deficitária. Uma lista de escolas e vagas é fornecida como anexo ao edital. Nela, o candidato escolhe a vaga de sua preferência, envia a documentação via Sedex (a postagem normal não é aceita desde 2010, para regozijo e faturamento dos Correios) e aguarda o edital seguinte, o de classificação. Diz o 07/2011 que, em caso de empate na qualificação dos candidatos, os critérios definidores serão: maior tempo de regência na rede pública e/ou privada (leia-se: experiência) e diploma superior (isso porque é permitida a participação de “formandos” no processo).

Bueno, eu imagino que existam muitos graduados em História neste estado. E que sofro de pouca sorte em sorteios (o que já havia constatado quando comprava rifas…). Isso porque, nas minhas seis participações nos editais de contratação, nunca consegui ficar acima da posição 30, o que é ruim – significa que só serei chamado, se o for, daqui dois, três, quatro anos (até lá, já morri de fome ou mudei de profissão).

Como vêem, os tais contratos do estado – que poderiam ser uma bela forma de unir sobrevivência com exercício da profissão – são bem complicados.

Poderia ser diferente. Sim, porque os editais de contratação não prevêem, por exemplo, o fator “pós-graduação” como critério de desempate. Ou seja: eu, que tenho mestrado em universidade federal (pública e gratuita, como Brasília adora afirmar), sou tratado pelo estado do Rio Grande do Sul da mesmíssima forma que meus pares sem pós-graduação. Da mesma maneira, os doutores, gente que passa quatro anos queimando pestana para obter qualificação profissional, são sepultados na mesma cova rasa de todo o resto. Para a Secretaria Estadual de Educação, pós-graduação não serve. E mesmo que ela possa representar uma melhoria na qualidade do ensino – pelo menos em termos quantitativos –, isso pouco importa.

O resultado? Na minha última seleção, fiquei empatado com quase todos os demais candidatos e meu nome foi sorteado (sim, porque quando há persistência de empate, eles sorteiam a ordem dos classificados). E aí, um enorme contingente de recém-formados – gente que pode até ser muito qualificada, mas que ainda não tem a mesma experiência e tempo de profissão que eu e outros mestres/doutores participantes – passou a ocupar as primeiras posições da classificação.

Adendo: se eu tivesse um certificado de Cacique, outorgado por alguma comunidade indígena, estaria classificado nos primeiros lugares para ministrar aulas em regiões habitadas por índios remanescentes. Certificados de Cacique são aceitos como qualificação. Mestrado, não.

Conclusão: de nada valeram os meus dois anos de mestrado. E os quatro de quem já fez doutorado e segue sem emprego numa das profissões mais falimentares deste país, a de professor. Não posso dar aulas em universidades federais – que só aceitam doutores – e não sirvo para o estado do Rio Grande do Sul – que prefere os recém-diplomados, mesmo que eles tenham parca experiência.

Por aí, já é possível ver o que nosso querido estado pensa sobre educação…

  1. Franciele Becher

    Sempre pensei justamente isso: os mestrados ficam no ‘limbo’: pouco ou nada valem no ensino público básico ou então não são contratados no ensino privado básico pq deveriam receber mais que os outros apenas graduados…. E, por nos faltar o Dr., não nos cogitam no ensino superior, salvo em algumas universidades privadas [duvidosas]. É triste. Nos resta tentar usar nossas capacidades de leitura, análise e interpretação pra ir bem nas provas dos concursos municipais, ou instituto federais. Fazer o que… =S

  2. Lidi

    Pois, Chico, só para complementar, te relato a realidade na minha região do Estado. Comenta-se, a boca miúda, que as escolas influenciam bastante nas listas de classificação dos contratos. Eu nunca trabalhei no Estado (e, enquanto puder, evitarei a menos que saia algum concurso), mas já ouvi casos onde a escola “solicita” para que determinado profissional, presente, claro, na lista de contratos, faça parte do seu quadro de professores, independente da classificação.
    Aqui, há contratos também por parte dos municípios, e a coisa fica mais feia ainda. Deixando de lado o fator “QI”, lamentavelmente sempre presente, o professor candidato a uma vaga no município tem duas opções: ou compromete-se em dar aulas na disciplina deficitária e mais duas disciplinas (geralmente inglês e religião), ou desiste e volta a aumentar a lista de desempregados. Já encontrei com vários colegas que abraçam outras disciplinas, sem nenhum preparo, somente para não perder o emprego.
    Bem complicado.

  3. Paula Rafaela

    CAro Chico.. há tempos não lia o seu blog… mas quero dizer que compartilho em gênero, número e grau com o seu texto. Também não fui classificada nesses editais, devo dividir com você a falta de sorte e, por isso, acabei por desistir deles. Além da secretaria estadual, os municipios também não consideram o nosso título de mestre para as seleções. Fato é que já não tenho ânimo para investir tempo e dinheiro em seguir estudando pois ao que parece, neste país, apesar dos discursos políticos, a educação, vale cada vez menos. Fazer um doutorado me custará sair da minha casa e permanecer com as dúvidas atuais, passei a graduação inteira falando que se nada fosse certo eu abriria um bar… e, francamente, tenho pensado seriamente sobre isso!
    Abraços…
    Paula

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